Na Minha Parede Escarlate Retratos
” (…) Entremos nesta peça como abrindo um leque de imagens em movimento que são elas mesmas predadoras dos nossos gestos, das nossas ansiedades e medos, imagens que catam em nós o que temos de quotidiano e o que no nosso quotidiano nos leva à excepção. (…) A parede escarlate de Isabel Barros, que compõe retratos, pulsa, ela corre sangue como veia e imagina a vida porque é uma parede dentro do corpo, dentro da cabeça. Ela é projecção e tela de um filme de avanços e recuos em que alguém se procura e momentaneamente se encontra. (…) Este trabalho de Isabel Barros é de uma beleza imediata intensa, cortante, feita de uma espontaneidade invejável, assente numa percepção inteligentíssima da liberdade do intérprete, que claramente pôde crescer dentro da narrativa encontrando o seu particular conforto. (…)”
Valter Hugo Mãe
Ficha técnica
direcção e coreografia: Isabel Barros
intérpretes: Carlos Silva, Jaime C. Soares e Sónia Cunha
cenografia: Isabel Barros e Helena Medeiros
música: Jonathan Saldanha
figurinos: Helena Medeiros
desenho de luz: Alexandre Vieira
construção de máscaras: Raul Constante Pereira, Sandra Neves e Hernâni Miranda
adereços: Isabel Barros
textos: Jaime C. Soares
fotografia: André Cepeda
produção: executiva Patrícia Caveiro
co-produção: balleteatro e Cine Teatro Constantino Nery
apoio: TROIS C-L – Centre de Création
chorégraphique: Luxembourgeois
classificação: m/12
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parede interior valter hugo mãe Os retratos que se fazem a partir desta parede cor de sangue são como fluxo contínuo, respiração da imaginação, livre evocação do que se quer presentificar, como se a realidade fosse sobretudo o que dela conseguimos fazer.
Imaginemos a realidade, poderia começar por dizer-se. Imaginemos que a realidade é o que imaginamos. Imaginemos que tudo era assim e que assim se poderia construir, como em fases distintas de um jogo de crianças, onde o bastante de uma situação permitisse passar a outra, sobretudo quando estejam esgotadas as suas questões, se definam as suas questões até ao limite, como o da morte.
Imaginemos que morte após morte podemos seguir mudando de quadro para um novo retrato do que é a realidade, do que somos nós, do que são os outros, como se no jogo nos fosse conferida nova partida, nova oportunidade para uma ínfima felicidade ou, dramaticamente, morrer sempre, morrer de modo diferente.
Entremos nesta peça como abrindo um leque de imagens em movimento que são elas mesmas predadoras dos nossos gestos, das nossas ansiedades e medos, imagens que catam em nós o que temos de quotidiano e o que no nosso quotidiano nos leva à excepção. Somos todos uma excepção num certo momento, todos atingimos um qualquer ponto de suficiência lógica a partir do qual entramos num insondável ou na ilusão. A realidade compõe-se também de ilusão e nós somos iludidos por cada coisa, especialmente por nós próprios, exceptuando talvez na inevitabilidade da morte. A morte é a imagem que pára. Aquela que, nesse jogo de gato e rato, nos caça e detém de vez por todas. Mas não aqui, no trabalho de Isabel Barros, aqui não nos pára definitivamente porque vamos desenrolando uma sucessão de hipóteses, uma sucessão de expectativas, de tentativas. Tentamos escapar. Tentamos encontrar no movimento e em tudo quanto possamos evocar um método para escapar, talvez sobreviver, talvez ser de novo, começar de novo, como outro, noutro lugar, para seguir vivendo e, na verdade, não morrer nunca.
A parede escarlate de Isabel Barros, que compõe retratos, pulsa, ela corre sangue como veia e imagina a vida porque é uma parede dentro do corpo, dentro da cabeça. Ela é projecção e tela de um filme de avanços e recuos em que alguém se procura e momentaneamente se encontra. É o todo da vida que se mexe diante de nós, colocando-se e recolocando-se como encaixando peças de um quebra-cabeças que vamos construindo na simples intuição de se estar vivo. Viver é isso, um quebra-cabeças tácito que resolvemos com maior ou menor destreza, mais ou menos conscientes de o estar a fazer, enquanto nos convencemos de que existimos por outros motivos, enquanto queremos dotar o tempo de uma espiritualidade ou uma importância tal que nos justifique as angústias, as perdas, o vazio, a precipitação para o fim.
Este trabalho de Isabel Barros é de uma beleza imediata intensa, cortante, feita de uma espontaneidade invejável, assente numa percepção inteligentíssima da liberdade do intérprete, que claramente pôde crescer dentro da narrativa encontrando o seu particular conforto. E este é um trabalho feito de três intérpretes rigorosos, expressivos dentro de uma contenção madura, muito bem conseguida, entre o esfusiante e o incómodo, entre o gesto quase geométrico e o gesto desmontado da diversão. Jaime C. Soares, também autor do texto que diz, Sónia Cunha e Carlos Silva souberam imaginar o que Isabel Barros imaginou, e de ilusão em ilusão fizeram a realidade de umas quantas personagens que se cansam no decorrer deste espectáculo. Cansam-se de quanto acontece, a ver se acontece outra coisa, a ver se o que acontece as leva a um fim diferente, se a morte não é o fim que se tem de imaginar, como se imaginar um fim pudesse ser regressar ao início ou, quem sabe, imaginar um fim fosse apenas a palavra de ordem para que o espectador se liberte e inicie ele próprio o jogo, com a sua própria vida, imaginando-se e criando-se como puder. Antes da morte, antes que a morte destrua o movimento e não possamos, todos, imaginar mais nada. Uma proposta brilhante destes artistas, a de nos obrigar a recomeçar.
Valter Hugo Mãe