IP5
IP5 é:
– O nome de uma estrada que constitui um símbolo de ligação de Portugal à Europa, marcando o início das políticas radicais de desenvolvimento económico e da ilusão “dantes éramos infelizes e pobrezinhos, agora somos ricos e felizes”.
– Uma peça estruturada em quadros, do género “O Mundo em Quadradinhos”, com títulos tão diversos quanto esclarecedores: “Engarrafamento Eterno”, “Chirac Nucleaire”, “Pesadelo Papal”, “Discurso de Sua Excelência a Procuradora-Geral da Moral”, “Boris & Bill”, “Assalto com seringa no Multibanco”, “Salvem o PP”, “Vida de Fax e Gravata”, “Homenagem a Pinto da Costa”, “A Retoma do Tomate”, contando ainda com um final surpresa e a especial participação do público.
– Um espetáculo altamente amoral, altamente musical, altamente divertido, altamente crítico, altamente polémico, altamente perturbador da ordem pública, altamente poético, altamente anti-depressivo, altamente desaconselhável a pessoas sem sólida formação moral.
– Uma visão crítica e bem humorada das hipocrisias do mundo contemporâneo.
Ficha técnica
encenação: João Paulo Seara Cardoso
texto: Regina Guimarães
cenografia e marionetas: Elisa Queiroz
música: Roberto Neulichedl, Franco Quartieri
coreografia: Isabel Barros
figurinos: Luísa Costa Pinto
desenho de luz: António Real
direção de produção: Mário Moutinho
interpretação: Ana Queiroz, Carlos Magalhães, Igor Gandra, Maria João Castro, Rui Oliveira, João Paulo Seara Cardoso
operação de som e luz: Nélson Valente
design gráfico: Eduardo Miguel
técnico de construção: Abílio Silva
assistente: Agostinho da Silva
construção de cenografia: Construções Sodestroi SA
confeção de figurinos: Atelier Luisa & Pizarro
efeitos especiais: José Cunha
fotografia de cena: Henrique Delgado
painel eletrónico: J.G. Componentes Lda.
secretárias de produção: Fátima Moreira, Manuela Martinez, Susana Barbosa
agradecimentos: Sr. António Rua, João Lorga, Né Barros, Queiroga Santos, Eng., Silva Santos, Eng. Carlos Moreira, Eng. Vieira de Sousa
patrocínios: Salvador Caetano SA, Lojas Bombom, Edições Afrontamento
Galeria
Imprensa
Almada: Surpresas boas e más
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Noutra área coloco IP5, de Regina Guimarães, pelo Teatro de Marionetas do Porto, um espetáculo excecional na sua subjetividade e em certas passagens, abstracionismo, no carácter simbólico que marca outras passagens, um espetáculo que marca talvez uma viragem no carácter experimental do grupo, tendo em conta a importância do texto, e do trabalho coreográfico (Isabel Barros), mas um trabalho com uma grande força crítica e uma enorme carga política, com alguns quadros admiráveis (só um exemplo: o quadro do circo) e de uma beleza, na cena final, de cortar a respiração.
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Carlos Porto
in “Jornal de Letras”, 31 de julho de 1996
Um festival de público
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Este magnífico trabalho voltou a demonstrar a rara habilidade de João Paulo Seara Cardoso e da sua equipa para a articulação de técnicas várias de manipulação com um imaginário plástico (Elisa Queiroz) de tão soberba criatividade que a ironia e o humor negro, dominante nos dois quadros «costumbristas», se converteram em autêntica poesia espacial, pela fabulosa integração das técnicas do marionetismo com o universo da dança contemporânea (Isabel Barros).
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Eugénia Vasques
in “Expresso – Cartaz”, 27 de julho de 1996
Os Modernos
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É ainda a atualidade que está em IP5, do Teatro de Marionetas do Porto. O título, do espetáculo e de um «rap» executado durante o espetáculo, remete-nos para a metáfora que percorre o espetáculo: as vias únicas como caminhos obrigatórios da normalização, como símbolos do mito do progresso que percorre o discurso, principalmente político, da contemporaneidade; a perda da individualidade; a modernização que recobre um radical provincianismo. Mas sem qualquer apologia do retrocesso, do passadismo ou do primário anti-moderno. Trata-se de um discurso que se situa na contemporaneidade pela temática, como o ilustram «sketches» como o diálogo Clinton/Ieltsin, o discurso da procuradora-geral da Moral ou o assalto ao Multibanco com seringa; que se situa na contemporaneidade pela opção estética, e pela fragmentação que organiza o espetáculo a partir do momento em que entramos na sala, integrando nele os avisos que preenchem o habitual tempo de espera (um pouco como Lucinda Childs, num recente trabalho, fez das entradas dos bailarinos em cena a primeira parte da coreografia). Justamente, o aspeto coreográfico é notável neste IP5: as marionetas já não precisam de história, basta-lhes, por vezes, um movimento organizado para criarem momentos pouco menos que mágicos, que culminam na maravilhosa cena final, em que o palco se abre para deixar ver, misteriosamente imóveis, as criaturas que durante mais de uma hora atuaram perante nós. Mais uma vez, o Teatro de Marionetas do Porto – João Paulo Seara Cardoso, na encenação, e todos os seus extraordinários colaboradores – nos vem recordar, se fosse ainda necessário, que é um caso exemplar de inteligência, de criatividade e de bom-gosto no panorama do teatro português.
João Carneiro
in “Expresso”, 13 de abril de 1996
Proxenetas, Folguedos e Estradas
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O Teatro de Marionetas do Porto, por seu turno, decidiu satirizar a mentalidade desenvolvimentista que marcou o Portugal dos últimos anos bem como o fascínio bacoco por tudo o que cheirasse a Europa. O seu novo espetáculo, intitulado “IP5” (numa alusão a uma das mais emblemáticas autoestradas do país) é, pois, um manifesto irónico e por vezes mesmo corrosivo contra alguns dos equívocos que o Poder procurou servir em bandeja de prata. Hipocrisias à água! – é este o espírito de mais uma produção humorística dirigida por João Paulo Seara Cardoso e que segue na esteira de outros espetáculos da companhia, como o celebrado “Vai no Batalha!”.
Com textos da escritora Regina Guimarães, o espetáculo desenrola-se em vários quadros, todos eles alusivos a aspetos deploráveis, desconcertantes, pícaros, burlescos ou simplesmente risíveis do mundo contemporâneo. É assim que Jacques Chirac não escapa à crítica aguçada, por causa dos testes nucleares no Pacífico, e o papa é acometido, certa noite, por um pesadelo sobre preservativos, chamando então os cardeais da Cúria que, do alto da sua infinita sabedoria, concluem que o melhor mesmo para prevenir a sida é o coito interrompido. “Discurso de Sua Excelência a Procuradora-Geral da Moral”, “Assalto com Seringas no Multibanco”, “Homenagem a Pinto da Costa”, “A Retoma do Tomate” e “Salvem o PP” (leia-se, “pediculus púbis” não confundir com PC, “pediculus capilaris”) são outras das sugestivas cenas que, durante uma hora e um quarto, prometem levar à gargalhada o público que se deslocar, a partir de amanhã, à pequena sala do Teatro de Belomonte. As marionetas que entrarão em cena são bonecos articulados, com cerca de 45 centímetros de altura, criados por Elisa Queiroz. A coreografia coube a Isabel Barros, os figurinos a Luísa Costa Pinto e a música é da autoria de Roberto Neulichedl e Franco Quartieri. As vozes são de Ana Queiroz, Carlos Magalhães, Igor Gandra, João Paulo Seara Cardoso, Maria João Castro e Rui Oliveira. Aviso à navegação: os responsáveis da companhia caracterizam este espetáculo como sendo “altamente perturbador da ordem pública e altamente desaconselhável a pessoas sem uma sólida formação moral”…
José Palmeira, Sérgio C. Andrade e Nuno Corvacho
in “Público”, 17 de fevereiro de 1996