Precisei de um sonho
Texto Integral
Precisei de um sonho
Demorei mais um dia, precisei de um sonho para terminar um texto.
Preciso sempre dos sonhos para criar, para escrever, é através deles que convoco a memória e encontro o sentido para construir e pensar futuro.
Nos últimos dias, a intensidade das coisas do presente, trouxeram imagens de exceção, imagens resgatadas à memória a propósito da cidade e da dança na cidade.
Escrevo este texto em pleno festival DDD Dias Da Dança que envolve as Câmaras das três Cidades Porto, Matosinhos e Gaia.
Um Festival que une vários parceiros numa grande cumplicidade artística.
Durante estes dias, mergulhada entre a dança que percorre as cidades danço primeiro e penso depois, a ordem natural segundo Samuel Beckett, que partilho em absoluto. O movimento do corpo que se estende para além de si, e que nessa extensão leva quem passa mesmo que sem intenção.
Sempre encontrei na cidade inspiração através do movimento incógnito dos corpos, sempre os imaginei atravessados por outros movimentos extra quotidianos, sempre olhei o espaço urbano como matéria, tudo isso me motivou a criação de um momento especial dedicado à dança e à performance para o espaço urbano.
Assim surge em 2013, o mais pequeno dos Festivais que criei: Corpo + Cidade, este ano, incluído no grande Festival DDD- Dias Da Dança. Curiosamente, Corpo + Cidade é o mais recente, o mais pequeno, mas contudo o que faz mais sentido para mim hoje, pensando a cidade atual neste trabalho coletivo entre as várias estruturas que operam na cidade, nomeadamente com o funcionamento pleno do espaço maior para a dança, o Teatro Municipal do Porto Rivoli.Campo Alegre.
Entre 1998 e 2001 criei e programei o Ciclo Movimentos que, entre outros, trouxe pela primeira vez ao Porto Jérome Bel, Mathilde Monnier, Xavier le Roy, Hans Hof Ensemble, Josef Nadj, Mark Tompkins, Jo Fabien, Georges Appaix, Kinkaleri, Raffaella Giordano.
Em 2001, numa colaboração com o Teatro Nacional S.João fiz uma programação de grande fôlego, a maior e a última, uma vez que logo a seguir a cidade teve uma abrupta política de recusa em relação à Cultura.
Na mudança, neste caso na excelência da mudança politica recente, a Cultura volta a ser amada, e invade a cidade devolvendo todo o trabalho dos artistas que de forma resiliente não desistiram do seu lugar na cidade.
Na passagem para o Edifício Axa, com o apoio da Porto Lazer/CMP, celebrando 30 anos de balleteatro, com Flávio Rodrigues, bailarino e coreógrafo iniciamos a nova aventura de programação com um nome CORPO + CIDADE. Esse festival que faz da rua, das praças e de cada lugar uma paragem e provoca os sentidos. Esse festival que é a extensão do trabalho que se realiza a partir de um novo lugar, onde o balleteatro é estrutura Artística Residente, refiro-me ao Coliseu Porto, hoje, um grande palco, um palco que se estende até à rua e abraça a Cidade.
Precisei de um sonho para terminar um texto, que não termina aqui, tudo está sempre a começar, essa é a beleza da vida.
Texto publicado originalmente no site Porto 24, maio 2016
Dados da publicação
- Autores
- Isabel Barros
- Ano
- 2016
- Idioma
- português