por Auditório de Espinho
Texto Integral
Como é que nasce este Alugo-me para Sonhar e como é que se torna realidade?
Leio e escrevo muito antes de começar cada criação. Desde Lá où je dors, criada em 2002, e na qual o espaço era o espaço do lugar dos sonhos, sabia que teria de voltar, numa nova criação, a essa mesma temática e Lugar. Quis desenvolver esta ideia em partilha com uma cúmplice colaboradora, Helena Medeiros. Juntas trabalhamos durante muito tempo nas imagens e sobretudo nas criaturas que iriam habitar esse Lugar-Os Pássaros. A paixão pelos pássaros, o encanto dos seus gritos e a felicidade do voo foram o meu maior impulso na criação de histórias e construção deste Lugar. Após todo o trabalho de preparação prévio, comecei os ensaios com o músico, Jonathan Saldanha, e as duas intérpretes, Elisabete Magalhães e Luísa Brandão. Foi muito intenso e envolvente. A composição foi feita através de improvisação sobre os temas que sugeri e de uma forma orgânica as histórias do corpo e da voz foram nascendo até terem uma forma. O músico, sempre presente nos ensaios, foi criando em simultâneo com todo o trabalho das intérpretes.
Que trabalho envolve a concepção de um trabalho desta natureza do inicio até ao final? Que exigência aplica a si mesma?
Antes de iniciar faço todo um trabalho de pesquisa de materiais, textos, filmes, imagens, tudo o que considere que tem directa ou indirectamente a ver com o que vai ser criado. Quando começo os ensaios intuitivamente vou tomando opções mas sempre de uma forma muita aberta, como se não pretendesse chegar a nenhum fim, no sentido de obra acabada. Gosto de ver como os intérpretes se apropriam e transformam os materiais que lhes dou. Lentamente as imagens que habitavam silenciosamente o meu pensamento começam a surgir naturalmente. As pequenas histórias vão ganhando forma e chegamos a qualquer coisa parecida com um fim. Durante o período de ensaios, diariamente actualizo e renovo materiais, gosto de experimentar, e acabo sempre por deixar de fora muitas cenas e muitos momentos, aprendi que é fundamental não ficar com tudo. Durante esse tempo o meu olhar é profundamente atento, consumo cada segundo, e estou sempre muito inquieta no sentido de tentar encontrar aquilo que ainda não surgiu, mas que eu sei que existe e vai aparecer, acredito muito no que sinto em relação ao que cada intérprete é.
Quando é que tem a sensação que o espectáculo que concebeu atingiu os seus objectivos e ganhou vida própria?
Só quando o espectáculo é apresentado publicamente, posso perceber algumas coisas. Esse é o momento do teste, é exposto finalmente ao olhar. Nesse momento, também já tem vida própria, está em absoluto nos corpos dos intérpretes, já lhes pertence.
Alugo-me para sonhar segue as temáticas exploradas em trabalhos anteriores tais como “Quarto Escuro”, “Pó” e “Là Où Je Dors” ou seja, os lugares e as criaturas do espaço do sonho. Este é para si um espaço que gosta de explorar e voltar sempre?
Gosto da liberdade de criar afastando-me da ordem natural das coisas. Ao criar um Lugar povoado por criaturas diferentes das que encontramos no quotidiano, acredito perturbar a lógica, o peso, a natureza. Acredito provocar inquietação, perplexidade e sobretudo provocar a imaginação. Vejo a dança como um lugar privilegiado para perturbação dos sentidos. Sou fascinada pelo canto, acho que seria maravilhoso a comunicação dos humanos ser toda cantada, como se fossemos pássaros na terra. Nos sonhos posso e faço isso: ouço homens a cantar, vejo pessoas a voar, encontro mil criaturas diferentes e poderosas que depois desaparecem e só reencontro outra vez de novo Lá, onde durmo.
O título desta peça foi retirado de um conto de Gabriel Garcia Marquez. A escrita do autor combina bem com o sonho de que se fala nesta apresentação?
A escrita de Garcia Marquez nada tem a ver com a peça. Roubei o título, apenas porque o faço quase sempre quando tenho que decidir por um título. Para mim o título serve várias coisas. ALUGO-ME PARA SONHAR, podia ser o nome de um filme, de um quadro, de uma performance individual na rua, imagino uma mulher com um letreiro a dizer: alugo-me para sonhar. Os títulos são nomes que pretendem introduzir de alguma forma o primeiro contacto, neste caso achei este muito bonito, e para mim tem dois sentidos, por um lado remete para o sonho, que é a temática da peça, por outro tem um duplo sentido, nós ao fazermos um espectáculo de alguma forma estamos a alugar o nosso corpo para durante um certo tempo poder sonhar, e fazer sonhar, isto acho também muito interessante.
Aos seus olhos, como está a dança em Portugal? É um caso de vivência ou de sobrevivência?
A dança está mais fortalecida e madura. Hoje há estruturas diversas, criadas por coreógrafos, da minha geração, que da mesma forma que nós (balleteatro) fazemos, dão impulso a outros coreógrafos, e funcionam duplamente como referências e promotores de novas gerações. Há muitas e diversificadas poéticas. Há teatros, e como sempre ainda um longo caminho a fazer para que a circulação aconteça de uma forma eficaz. Há também uma estrutura, a REDE, que é composta por várias estruturas de dança contemporânea do País que tem contribuído para fortalecer e defender várias questões relacionadas com a dança em Portugal.
Em relação ao Balleteatro, que balanço faz da actual actividade da companhia?
Continua a ter uma actividade regular, apresenta duas criações novas por ano. É uma estrutura muito dinâmica que permite que os profissionais (intérpretes) e colaboradores, essencialmente da Cidade do Porto, e não só, possam trabalhar em projectos diversificados. Tem tido nos últimos anos parceiros como o Teatro Nacional S.João e Rivoli Teatro Municipal (até 2005), e procura actualmente parcerias que permitam continuar a ser referência. Paralelamente ao trabalho de criação, promove Residências, tentando criar cada vez mais um espaço de partilha e de fortalecimento da comunidade da dança no Porto.
Para terminar, o que é que o público do Auditório de Espinho pode esperar desta estreia no dia 17 de Novembro?
Vão ser os primeiros a descobrir uma criação feita por uma equipa apaixonada, com muito entusiasmo e cheia de vontade de partilhar rapidamente este Lugar. Nós alugamo-nos para sonhar, o público está convidado a entrar.
Dados da publicação
- Autores
- Auditório de Espinho, Isabel Barros
- Ano
- 2007
- Idioma
- português